Hoje vou falar sobre um tema que há muitos anos me incomoda, e não consigo encontrar outro nome que não seja a síndrome do patinho feio no turismo brasileiro. Constantemente, vemos campanhas de marketing de destinos turísticos que se referem a outros lugares do mundo para valorizar o do Brasil. Vamos discutir porque isso acontece?!

A Síndrome do Patinho Feio

A fábula do Patinho Feio já é muito conhecida por todos, afinal escutamos a história desde crianças. O patinho nasce feio em meio aos seus irmãos bonitos, e isso se transforma em motivo de sofrimento para ele. Então ele cresce e, como toda história infantil que se preze deve ter um final feliz, se transforma em um lindo cisne. A mensagem é clara: ninguém está condenado a ser algo pelo aspecto físico do nascimento; nesse sentido, a beleza exterior pode se transformar e acompanhar as mudanças da beleza interior.

O nosso patinho feio em questão é o Brasil pela ótica de seus destinos turísticos. A minha preocupação é, que nem sempre na vida real o final é como um conto fadas. Precisamos trabalhar em direção ao nosso final feliz. Então vamos fazer uma analogia do nosso turismo com a fábula do patinho feio?!

Destinos interessantes no Brasil precisam ser relacionados a outros destinos internacionais?

Vejamos algumas campanhas de turismo que com poucos cliques consegui levantar.

Síndrome do patinho feio no turismo brasileiro: exemplos de notícias que relacionam destinos turísticos brasileiros a destinos internacionais.

Quem nunca viu uma dessas campanhas? Seja de agências de viagem ou dos próprios destinos? Eu sinceramente não acredito que uma foto dessas, de uma praia brasileira, por exemplo, precise ser comparada a qualquer outro destino do mundo. É necessário aprender e entender o processo de decisão de um cliente/ turista. Mas, mais do que isso, é essencial que esse aprendizado seja utilizado nas estratégias de marketing dos destinos brasileiros.

Um viajante que já visitou o Caribe, a Europa ou os Estados Unidos pode viajar pelo Brasil, querendo conhecer o Brasil. E o contrário também acontece, um turista que nunca viajou para fora do país, pode sim querer conhecer o Brasil e não “imitações” de outros lugares do mundo. Simples assim!

A transformação do turismo brasileiro em cisne

E se na história do patinho feio a transformação vem de dentro, com o planejamento e gestão do nosso turismo não é diferente, não é?! Ou seja, para sermos de fato uma das primeiras escolhas do turista interno, precisamos resolver essa equação:

A soma de destino organizado, mais facilidade no acesso, mais tarifas competitivas resultam em destino escolhido com sucesso pelo turista.

Primeiro de tudo, a organização dos destinos é essencial. É preciso fazer o sistema interno – em nível municipal – funcionar. E aqui não estou falando de grandes projetos, mas sim de identificar e categorizar a oferta turística. Entender a demanda. Criar uma rede de conversa e cooperação entre público, privado e sociedade civil organizada (no melhor cenário um COMTUR estratégico e atuante). Com esses pontos básicos, já é possível traçar uma direção para o setor.

Chegar ao destino em segurança também é muito importante. Portanto, deve-se mapear os acessos e facilitar a chegada de seu turista ao destino. Se não conseguir da forma ideal, é preciso encontrar alternativas.

E a relação preço x valor deve ser transparente. Principalmente no período pós pandemia, quando todos estarão com o desejo de viajar, mas todos também com dificuldades financeiras. Não vai ser possível recuperar todo o prejuízo de uma vez só.

Com isso, já dá para apresentar os destinos brasileiros com toda sua beleza, história, cultura, modo de viver das pessoas e tantos outros adjetivos, sem precisar pegar carona em nenhum destino internacional. Contudo, ainda é possível roteirizar os destinos, se quiser saber mais sobre roteirização confira a Parte I e a Parte II que escrevi sobre esse tema e ainda os vídeos sobre roteirização de destinos clicando aqui.

Como sensibilizar comunidades se o setor não está sensibilizado?

E não tem um Plano Municipal de Turismo que não tenha previsto ações de “Sensibilização da Comunidade”. Nas sensibilizações estamos sempre falando sobre a importância do senso de pertencimento. Isso é ótimo, mas como desenvolver esse senso se na campanha de marketing estamos falando que nosso destino é o Caribe, a Europa ou os Estados Unidos? Que “se você não pode ir para um destes destinos internacionais, contente-se com as imitações que temos por aqui”?

Onde está nosso senso de valor se achamos que quando os Estados Unidos e Europa fecham momentaneamente as portas para o turista brasileiro, isso é ótimo, pois agora os brasileiros serão “obrigados” a viajar pelo Brasil?

Já está na hora de seguirmos nossos planejamentos e valorizar o nosso discurso de que o Brasil é um “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” e que trabalhamos duro para nos consolidarmos como a primeira escolha de turistas brasileiros e internacionais!