Como planejadores e gestores do Turismo é claro que também é importante termos nossas vivências e percepções como turistas. Afinal é para esse ser explorador por essência, e que também o somos, que todo nosso trabalho é direcionado. Nesse post quero trazer duas experiências que tive como turista no Chile: uma no famoso Valle Nevado, que não foi tão positiva quanto a minha expectativa e a outra no Vale do Colchagua, que foi uma surpresa maravilhosa. Vamos lá?!

Nossa viagem ao Chile foi em 2014, mas como viagens ficam para sempre dentro de nós, lembro de muitos detalhes deste roteiro. Que por razões óbvias tive o prazer de construir. O roteiro era basicamente conhecer Santiago, uma estação de esqui e uma experiência com vinhos.

Uma experiência no Valle Nevado

Vou me ater às duas experiências no interior, que foram especialmente marcantes. Primeiramente, vou apresentar meu pequeno grupo como as personas que éramos naquela viagem. Dois casais, todos com mais de trinta anos de idade, sem pressa de conhecer tudo, prezando muito mais pela qualidade da viagem. Nenhum de nós era (ou é) atleta, mas tínhamos lá nossas aptidões e dificuldades.

Como era a primeira vez de nós quatro em uma estação de esqui, nossa experiência com esportes de neve era basicamente pelo Canal Off, e confesso que não estudamos muito sobre o assunto. Dos quatro, três queriam esquiar, ou qualquer atividade similar e um somente queria assistir. Nada demais, não é?!

Como não queríamos estar presos a horários e grupos, decidimos não comprar com um receptivo local e negociamos com um motorista. Não foi muito barato, mas ele ia ficar o dia todo a nossa disposição, então ok. Partimos numa manhã fria de julho no hemisfério sul para o Valle Nevado. Caminho tenso, mas maravilhoso. Uma paisagem que definitivamente não estamos acostumados a ver. Aliás o Chile tem uma geografia impressionante, de tirar o fôlego mesmo.

Primeiros problemas

Nosso motorista parou no estacionamento e disse: – podem ir que estou aqui aguardando. Já ficamos meio sem entender aquilo, mas partimos para a recepção da estação. Claro que ali teríamos informações, certo?! Errado! O balcão de informações não tinha ninguém, em plena alta temporada. Quando olhamos para o lado, um dos nossos companheiros de viagem, mais aflito, já estava alugando tudo para esquiar. Perguntamos: – Mas ué, você não ia esquiar, ia?!

Confesso que até hoje não sei o que a pessoa falou com ele para convencê-lo, mas a partir daí a experiência foi só piorando. Já que um tinha comprado, fomos no vácuo dele. Optamos pelo esqui tradicional mesmo. O que mais me incomodou, e a todos, era que ninguém falava o valor total do passeio! Primeiro fomos encaminhados para a lojinha que alugava a roupa, perguntamos sobre o resto do passeio. A resposta: – Não sei, aqui só sabemos do aluguel de roupas. Na verdade, acho que nem isso, porque depois descobri que eu e meu marido poderíamos ter ido com a nossa jaqueta mesmo, afinal elas eram impermeáveis. A atendente nos deixou entender que só poderíamos alugar o conjunto.

Próxima parada, botas de esqui! Para quem nunca esquiou não é fácil escolher, e muito menos caminhar com ela. Muita gente andando, e ninguém sabendo explicar direito. Mas claro que pagamos mais um valor por lá. Pronto, a esta altura já entendemos que teríamos que aprender a circular lá na estação por conta própria mesmo. Última parada antes de subir para a estação, uma moça no guichê que vendia o ticket para o teleférico, nos perguntou: – Vocês vão subir de teleférico? Respondemos: – Qual a outra opção?! Ela: – Não há outra forma de subir. – Ah tá. Me vê quatro tickets, por favor.

Esquiando no Valle Nevado

Não preciso falar que nesse caminho íamos desembolsando pequenas fortunas e que ninguém sabia qual era o próximo valor, não é?! Bom, chegamos para a aula de esqui para os primeiros passos para esquiar. O professor não tinha lá muita paciência com iniciantes e era meio grosseiro. Nessa altura já estávamos meio chateados, e fomos prestando atenção, errando e acertando. É, deu para tirar a foto.

Foto na subida do teleférico para a estação de esqui
Subindo o teleférico para a estação de esqui

Por fim, cansados e com fome fomos tomar um chocolate quente e comer um crepe, num carrinho que ficava por ali mesmo. Quase quarenta minutos para o crepe ficar pronto, depois da moça errar o meu duas vezes e o amigo, que depois descobri ser o dono do carrinho, ficar ali em cima dela batendo papo e fumando.

Uma experiência no Vale do Colchagua

07 de julho, véspera do jogo pela Copa do Mundo Brasil x Alemanha e poucos dias depois do Brasil eliminar o Chile da mesma Copa da Mundo. Alugamos um carro e eu já havia reservado do Brasil dois passeios a vinícolas, no escritório da “Ruta del Viño” da região do Vale do Colchagua. Lá eles tinham algumas opções de passeio, mas eu queria outra experiência. Queria conhecer uma vinícola mais familiar e uma mais tecnológica. Por isso, já havíamos escolhido a Casa Silva e a Lapostolle. O escritório prontamente atendeu à nossa demanda “personalizada”.

No dia do jogo, mais cedo, nossa visita guiada pela Casa Silva foi incrível. Estava muito frio, poucas pessoas no passeio e o restaurante aberto apenas para poucas pessoas. A visita foi perfeita! A degustação, nem se fala. E nem era época de colheita, as parreiras estavam secas. Mas as pessoas, não tinham nada de secas, muito pelo contrário. Foram amáveis e receptivos. Sem falar que a fazenda é linda e com muita estrutura, apesar de familiar.

Paisagem mostra as parreiras de uva secas e clima muito frio, com névoa ao fundo
Paisagem na vinícola Casa Silva

No retorno, depois de muito vinho fomos para o hotel ver o Brasil perder de 7 x 1 da Alemanha. Confesso que no quinto gol, fomos curtir a vista do hotel. À noite, saímos para jantar. Restaurante pequeno, também familiar, mas aconchegante e com uma certa sofisticação. Quando chegamos, meu marido soltou um “boa noite” em alto e bom português do Brasil. Claro que todos os chilenos vieram! Mas ainda assim, brincando sobre o resultado do jogo, foram amáveis e divertidos. Excelente noite, excelente jantar e excelente vinho.

Dia seguinte, fomos para a vinícola Lapostolle. Completamente diferente da Casa Silva, mas tão encantadora quanto. Construída em uma pedra, arquitetura arrojada, detalhes e mais detalhes na produção do vinho e novamente, recebidos por quem sabe receber. Detalhar mais aqui sobre o Vale do Colchagua, seria transformar esse texto em um texto de promoção, porque foi tudo perfeito. Mas como por aqui vamos pensar como planejadores e gestores do turismo, quero levantar pontos de atenção e reflexão que trago desde 2014.

Isabella e o marido posam na entrada da vinícola Lapostolle
Entrada da moderna vinícola Lapostolle

5 Pontos de Atenção para destinos e empreendimentos turísticos

  1. Um destino ou empreendimento já consagrado não pode deixar a qualidade cair, o investimento deve ser cada vez maior. Especialmente nas pessoas.
  2. Deixe claro as regras do jogo, e o valor também.
  3. Produção associada que entende de turismo aumenta em muito o score do destino.
  4. Nem sempre a alta temporada será favorável para você. Muitas vezes você pode criar experiências incríveis na baixa temporada.
  5. Sim, a primeira impressão é a que fica.